domingo, 30 de abril de 2017

Síria 2.1 - Em Sentido Contrário


Tudo começa naquele local repleto de magia, o aeroporto... Sinto o romper do cordão umbilical ao passar o controle de segurança... Respiro fundo e estou sozinho... Eu contra o mundo! Gosto dessa sensação de que já não posso olhar para trás... é só para a frente que estão concentrados todos os meus pensamentos, nesta missão que me marcará para todo o sempre... Olho à minha volta e sou apenas mais um, mas dentro de mim sinto uma força, uma energia, uma vontade de vencer inabalável... A cada contacto com desconhecidos, há uma voz dentro de mim que me domina: “Se soubesses para onde eu vou?” .... para onde todos querem sair...

E em 3 voos de seguida me ponho em Hatay (ou Antakya) na Turquia, já bem na fronteira com a Síria... e aí pelas caras, pelas roupas dos MSF me apercebo que neste último voo já vinha parte da minha nova família... Aqui já estamos 5 elementos desta futura equipa do hospital do norte da Síria... Não nos conhecemos, mas identificamo-nos de imediato, com expressões e linguagem comportamental semelhantes... um misto de excitação, cansaço, medo, entusiasmo e muita vontade de trabalhar...

O hospital onde eu trabalhei tinha sido encerrado semanas antes pela crescente presença de grupos radicais... que nós hoje chamamos hoje de Estado Islâmico... O Verão de 2013 foi um período de transição/modificação daquela que era a conjectura dos territórios controlados pela oposição ao regime... Esta crescente presença e repressão de grupos radicais, rapidamente criou enormes condicionalismos na população síria, e claro no trabalho dos Médicos Sem Fronteiras.... Mullahs e Imãs na sua maioria vindos do Iraque povoavam as mesquitas da região, alterando as “regras do jogo”, e assim impondo uma versão do Islão altamente repressora e punitiva... algo completamente diferente da práctica da esmagadora população síria, bastante moderada e equilibrada na sua forma de estar na vida... Esta mudança de paradigma, criou tensões e conflictos que obrigaram a evacuar o projecto e encerrar o hospital por falta de condições de segurança... E cabia-nos a nós reabrir o hospital e assim dar de novo alguma esperança aquele enorme pedaço de terra no norte da Síria, totalmente desprovido de estruturas de saúde, não fora os Médicos Sem Fronteiras...

Do aeroporto, vamos directos para o hotel.... e aí nos esperava a nossa chefe. Ela já estava em Hatay, há várias semanas a planear e orquestrar o regresso à Síria, e a reabertura do hospital... Fomos directos para uma reunião no quarto dela.... ainda estava meio desorientado da viagem, e já estava a ser bombardeado com informação... A minha chefe, enfermeira de profissão base e já com uma experiência de MSF absolutamente incrível... De imediato a minha chefe, entre cigarros, começou a abrir mapas por cima das camas dos seu quarto, daquilo que seriam os nossos próximos dias.... Até há pouco tempo atrás a Turquia facilitava a passagem de elementos dos MSF, por uma fronteira improvisada que não era mais que um arame farpado (que eu viria a conhecer mais tarde) e que encurtava bastante o trajecto... Mas com esta opção posta de parte, teríamos que dar uma enorme volta passando pela fronteira oficial na cidade turca de Killis... E o grande problema começa a partir daí quando a minha chefe nos mostra no mapa as inúmeras áreas em que ao fazer os cerca de 300kms por dentro de território sírio até chegar ao destino final, estaremos bastante expostos aos bombardeamentos frequentes.... As estradas são escolhidas minuciosamente na tentativa de serem protegidas pelas montanhas, mas algumas partes sombreadas a lápis cor-de-rosa no mapa, colocam-nos à mercê dos bombardeamentos frequentes do regime sírio.... É difícil, não engolir em seco com a antevisão destes perigos... mas paralelamente a importância da nossa missão parece crescer ao minuto e a vontade de fazer o que me propus assim acompanha....

A cidade de Antakya embora a escassos kilómetros da fronteira com a Síria, parecia ter todo um funcionamento normal.... A sul uma parede de montanhas, separava aquela cidade turca do maior inferno na terra do momento.... a guerra da Síria. Depois da dita reunião fomos beber um copo para descontrair e nos conhecermos... A conversa é boa, mas não consigo parar de pensar no que está a acontecer mesmo a sul, embora pareça tudo tão calmo e normal.... Fui dormir cheio de vontade do dia a seguir.... mas durante toda a noite ouvi bombardeamentos.... ou achei que ouvi, porque pelos visto tinha sido o único.... era tudo da minha imaginação....

A viagem de Antakya até Killis, não me deixou grandes memorias... mas a aproximação da cidade Killis que era mesmo na fronteira com a Síria, começou a abalar a minha estrutura..... Campos e campos e campos de refugiados até perder de vista a nascer por todos os lados... A fuga da guerra, mas a esperança de voltar mal esta acabe estacionou-os logo ali no primeiro ponto possível de quem saíra do norte da Síria em linha recta com Allepo e tantas outras cidades importantes.... É sufocante, asfixiante, desconcertante ver tanta a gente viver em tendas de plástico mais ou menos improvisadas, com condições limítrofes de sobrevivência.... é assustador e revoltante...

Em Killis, o assistente sírio da minha chefe, dá notícia pelo telefone a elementos do hospital na região de Idlib para onde íamos, que já estávamos na fronteira e em breve iríamos reabrir o hospital... Do lado de lá do telemóvel, ouvem-se gritos de alegria que nos aquecem a todos o coração.... Nessa noite dormíamos em Killis, antes de passar a fronteira bem de manhãzinha.... Escusado será dizer que há um “nervoso miudinho” que nos domina antecipando toda uma aventura que ainda nem começou... Vamos beber um copo e fumar shisha ao único bar de Killis que vende álcool, seria o último durante muito, muito tempo, pois na Síria tolerância zero por questões de segurança.... Nesse bar o avançar da conversa, a troca de diferentes sabores de shisha, e a construção de espírito de família de quem ia viver e trabalhar junto dia após dia sem folgas num ambiente de grande stress... é contagiado por um grupo de sírios todos do sexo masculino e com roupas de quem estava bem na vida, que começa a dançar com um ânimo e uma festividade como se celebrassem um casamento... Trocavam sorrisos na nossa direcção e já bem bebidos dançavam como se não houvesse amanhã... Até ai tudo normal, o detalhe que me marcou até hoje foi que começaram a lançar notas para o chão... quanto mais dançavam mais notas atiravam para o mesmo chão onde dançavam... seriam 7 ou 8 de várias idades, e entre abraços, risos, gritos e muita dança aos ritmos hipnotizantes árabes e/ou turcos... Observava-os disfarçadamente, mas dominavam completamente os meus pensamentos. A energia que transmitiam era uma mistura de alegria dum casamento com a tristeza de um funeral... Imagino uma salada de emoções de quem sente alívio por passar a fronteira e fugir a esta guerra estupidamente mortífera com a tristeza de quem deixa para trás a sua amada pátria, sabe-se lá com quantos entes queridos ainda à disposição das atrocidades desta guerra...

Imagino que deixar/desistir da sua pátria e tudo que ela representa será como abandonar para uma morte certa a nossa própria mãe....


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(continua)


terça-feira, 25 de abril de 2017

Mensagens para Mosul



Dentro de 1 mês, irei para o Iraque, Mosul trabalhar com os Médicos Sem Fronteiras. Eu tentarei fazer o que sei, salvar vidas num dos locais mais necessitados dos dias de hoje. Mas para além disso gostava de levar comigo mensagens de quem acreditar que não podemos ficar indiferentes a alguns acontecimentos trágicos da actualidade, como tem sido esta guerra por Mosul.
Em Junho de 2014, a maior cidade do norte do Iraque foi ocupada pelo Estado Islâmico, e desde Outubro de 2016 o exército Iraquiano tenta reconquistar esta importante cidade, numa guerra com consequências humanitárias dramáticas, que neste momento tem a cidade partida ao meio por uma linha de combate permanente. Nisto, há cerca de 400.000 pessoas encurraladas entre a espada e a parede com o propósito de escudos humanos. À mercê das bombas, de maldades e atrocidades, esfomeadas e desprovidas de tudo, inclusive de esperança.
Eu gostava de lhes dizer, que nós acreditamos que eles são seres humanos, que nós nos preocupamos e que tudo gostaríamos de fazer para que possam ter uma vida digna.
Irei recolher e compilar num livro, todas as mensagens/cartas que forem bem intencionadas e farei com que chegue às pessoas certas um reforço de esperança, um aquecer da alma que vos saia do coração, fazendo o difícil exercício de nos projectarmos naquilo que eles estão a passar.
Vou vos poupar das imagens de horror... das mortes, dos queimados, das decapitações, dos hospitais a transbordar de feridos... Mas quem vai estando atento terá uma ideia do sofrimento atroz que este povo tem estado sujeito!
Acredito mesmo que é na aproximação dos povos a solução para os grandes problemas, quero apenas ser o vector de todos aqueles que acreditam que vale a pena lutar por um mundo melhor.
1) Enviem por favor as vossas mensagens para o email : mensagensparamosul@gmail.com . Podem também fazê-lo através de comentário/mensagem no facebook, mas email seria preferível para melhor me organizar.
2) Escrevam o que vos apetecer, o que vos vai na alma. Português ou Inglês ( de preferência em Inglês), e tratarei de arranjar alguém que traduza para árabe.
3) Não mencionem o meu nome. Isto não é sobre mim. É de cada um de vocês para todas as pessoas que sejam dignas do vosso grito de esperança.
4) Tentarei trazer resposta, e responder a todos que me enviarem mensagens por email. Não prometo.
5) Vou precisar de ajuda. E agradeço imenso a todos que o possam fazer.
5.1) Que partilhem esta mensagem, ou copiem, ou enviem por email, tudo o que vos parecer que possa fazer com que eu leve um livro bem recheado de esperança!
5.2) Edição do livro. Tradução Português - Inglês e Português - Árabe e Inglês - Árabe.
6) Podem escrever mensagens curtas, ou cartas longas. Podem assinar ou não. Podem enviar ilustrações. Tudo o que eu possa pôr num livro.
7) Não passem a vida a pensar no que poderiam ter feito e não fizeram ou no que poderiam ter dito e não disseram.
8) Eu sei que é pouco, mas é melhor que nada!
9) Estou aberto a sugestões!
Na parte que me toca, profundamente agradecido por me fazerem acreditar, e por reforçarem o meu orgulho em ser Português.
Muito Obrigado!
Um exemplo de mensagem linda que acabei de receber: " Tenho 18 anos e pouco conheço do Mundo fora do meu pequeno e tranquilo país, Portugal. Posso não saber muito sobre outras realidades pois penso que até as vivermos nunca as conhecemos realmente. Mas de uma coisa eu tenho a certeza todos deveríamos ter os mesmos direitos, todos deveríamos viver em paz, todos deveríamos viver em igualdade, pois mesmo longe daqui a vossa vida tem tanto valor com qualquer uma.
Imagino que quem quer que esteja a ler esta pequena mensagem já tenha passado por muitos momentos difíceis, já tenha vivenciado momentos de crueldade e de medo. Por tudo isso gostaria muito que soubessem que mesmo longe do vosso país, num sítio que talvez nem conheçam à alguém que se preocupa com a vossa situação, que se preocupa com vocês e mesmo não vos conhecendo tem um enorme carinho por vos.
Um abraço muito apertado de Portugal. "

sábado, 22 de abril de 2017

Síria - Chegou a Hora

Síria 1.0,  Chegou a hora

A carga emotiva é tão grande que parece que as ditas vivencias da Síria nunca foram suficientemente processadas… Mas chegou a hora de enfrentar o touro pelos cornos, e começar a deitar cá para fora, como sempre sem saber muito o que dai virá…

Foram muitas noites sem dormir, cesarianas a meio das noites gélidas, várias situações de grandes influxos de vítimas dos bombardeamentos, noites passadas com o coração nas mãos a sentir a casa tremer com as bombas a cair…. Ainda assim terá sido nos momentos da entrada e da saída que tive os momentos de maior intensidade neste minha missão no norte da Síria, na província de Idlib, não muito longe de Allepo, bem nas linhas da frente de combate, em finais de 2013 já a guerra caminhava para o 3ºano, e num momento duma viragem catastrófica que nos enche de calafrios até ao dia de hoje…. O aparecimento do Estado Islâmico.

A viagem começa no processo de decisão, e até esse foi doloroso… O ano de 2013, foi o pior ano da minha vida… Por problemas pessoais cuja responsabilidade só posso imputar em mim, sofri horrores…bati muito tempo com a cabeça nas paredes em desespero e tive que ir buscar forças que não sabia que tinha… E como quase sempre, na face de grandes problemas a vontade instinctiva era de fugir… e eu tinha uma fuga muito fácil e que adoro que se chama: Médicos Sem Fronteiras… A tentação de ir, de fugir estava sempre ali tão perto, mas eu fiz-me homem, segurei-me e fiquei, e consolidei a passagem pelo cabo das tormentas, o melhor que soube. Nada disto passa, mas vai passando… E passado um ano, para ter a certeza que nenhuma decisão era tomada a quente, decido mudar de vida… Sair do hospital que me formou e viu crescer como pessoa e como médico durante 15 anos, e oferecer-me para pela 4a vez trabalhar com os MSF… mal podia esperar voltar a sentir o coração a bater na esperança de dar vida, e alimentar a minha…. Tinha chegado a hora, e que alívio que era, sair um pouco da prisão que tinha criado dentro de mim…

Lembro-me com memorias de transparência cristalizada, de ler, e reler, e reler, e reler, e reler outra vez, e quase como um robot automata reli para aí 100 vezes o email que me propunha a próxima missão na Síria – Idlib… Sinto o corpo todo a tremer… e não sei diferenciar ou dosear o enxurrilho de emoções que atravessam o corpo como choques eléctricos, enquanto releio o email já sem o ler… Medo de morrer, vontade de viver… Medo de magoar quem mais gosto, vontade de voltar a voar… Medo de me voltar a perder, vontade de fazer a diferença… Medo que seja cedo, vontade que seja agora… Penso no mal que tenho feito aos que mais gosto, mas tenho que ser honesto com o meu coração… Vejo a minha vida toda em minutos e depois em horas…. Mas a decisão estava tomada à partida… chegou a hora de voltar a ser feliz: eu vou!

Tento sempre estar atento ao que se passa no mundo e acompanhei bem de perto os momentos principais de toda a primavera Àrabe… A história de vida simbólica do vendedor ambulante tunisino que se imolou pelas injustiças de uma sociedade opressora, criou em todos que acreditam na democracia e liberdade, uma força que ficará na história como catalisadora de uma mudança... Ou pelo menos uma tentativa... Vários regimes ditatoriais do mundo árabe abanaram e caíram perante um povo que exigia uma vida mais digna e um mundo melhor... Túnisia, Líbia, Egipto, expulsaram os respectivos líderes e ditadores.... E na Síria um grupo de adolescentes em Março de 2011, escreveu um graffiti na parede da escola : “o próximo és tu, doutor!” (referindo-se a Bashar Al Assad que é médico) .... Estes jovens foram presos, torturados, electrocutados durante semanas.... O povo saiu à rua exigindo que os libertassem.... e a resposta foi à lei da bala por parte do exército Sírio.... estava instalada a revolução, a guerra civil.... das mais mortíferas e maquiavélicas que há memória...

A minha vontade ir vinha na mesma proporção dos apertos no coração, que as imagens e relatos de sofrimento deste povo me faziam sentir... Já tinha estado em 3 guerras, mas esta adivinhava-se como muito mais impactante na minha história de vida e despertava em mim, um medo que me congelava os pensamentos.... mas que teimei em resistir...

Marcou em mim, um antes e um depois.... a importância desta missão enche-me de orgulho... pois mais do que nunca o propósito dos MSF fazia sentido... Muito mais do que os feridos de guerra, que são muitos, é toda uma população que ficou despida de cuidados de saúde básicos e diferenciados, tornando a mortalidade exponencialmente superior à causada pelas bombas...

Às vezes perguntam-me: “Porque é que vais?” .... eu não digo nada, sorriu em silêncio e respondo para mim: “Como é possível não ir?”


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Chegou a hora de começar a escrever sobre a Síria....


domingo, 2 de abril de 2017

Até Sempre Afeganistão

Até sempre Afeganistão

Fechando a página sobre o Afeganistão. Às vezes tenho que me perguntar e puxar bem atrás as minhas memórias para que me recorde porque é que eu comecei a escrever... E talvez misturando e baralhando uma série de sensações eu diria que o ponto em comum em todo a minha escrita e que acho que me vou mantendo fiel e honesto é tentar fazer com que possamos ver que todas as vidas deveriam ter o mesmo valor... Mas passamos todas as nossas vidas numa deturpação emocional, que nos leva a crer que algumas vidas valem mais do que as outras... e eu gostava de lutar contra isso! No fundo, no fundo, escrevo para que se tenha mais honestidade e justiça na forma como olhamos para o mundo... Sabendo que crescemos por defeito, com medo do desconhecido, e encontramos conforto ao afastarmo-nos de realidades que desconhecemos, e por isso as desprezamos.... Conseguimos condenar os terríveis cobardes responsáveis pelo ataque às torres gémeas que mataram cerca de 3.000 pessoas, mas esquecemo-nos de condenar, moral e politicamente os que sem saber o que faziam nos levaram para  a guerra do Afeganistão, com já mais de 15 anos e cerca de 500.000 mortos... O maior esforço que tenho feito nos últimos anos, é conter a minha revolta, perante esta falta de honestidade e justiça.... E tudo isto porque do lado de lá, está um povo que não conhecemos, que diabolizamos, que nos convém descrever como um monstro, para que consigamos dormir descansados.... Mas não é verdade... do lado de lá está um povo com tantas ou mais boas pessoas do que do lado de cá.... E se neste caso a cor até nem é grande diferenciador.... as vestes, a língua, a cultura e claro, a religião que professam acoplada a uma enorme dose de sub-desenvolvimento, resulta num distanciamento emocional enormíssimo.... E por isso escrevo, por que tive a sorte e o privilégio de lá estar... e não conheço ninguém que lá tenha estado, com coração aberto e algum sentido de humanidade que não tenha chegado a conclusões semelhantes às que eu fui construindo na minha cabeça... Está na altura de antes de fazermos julgamentos ouvirmos a história dos dois lados... Porque todos sofremos a morte dos nossos entes queridos com a mesma intensidade....



E num belo dia uma “bomba” caiu na praça pública! Mas esta é daquelas que explode aos poucos mas com muita intensidade: Diz-que-disse, que em Bagram, na maior base militar dos americanos a norte de Kabul, foram vistos vários exemplares do Corão a ser queimados. Se me perguntarem a mim se queimar um livro é motivo para deixar alguém furioso, eu diria que não! Mas este livro é sagrado para muitos e penso que devemos respeitar isso. A explicação por parte dos americanos parecia fazer sentido.... que os livros queimados estavam a ser usados pelos prisioneiros para comunicar entre eles, no entanto a fúria do povo afegão fez-se sentir por todo o país, com manifestações em todas as grandes cidades contra a presença das forças aliadas no país.  Triste é que quando o povo está assim a fervilhar pela volatilidade e clima de hostilidade que pairava no ar, nós não podemos sair de casa por questões de segurança, e é uma dor de alma saber que com esta restrição de movimentos, várias vidas podem se perder por nós não estarmos no hospital... Foram vários os telefonemas que os enfermeiros que trabalhavam comigo me iam fazendo para gerir casos mais difíceis... mas não é a mesma coisa... perdemos algumas vidas, assim como morreu gente por todo o país nas ditas manifestações que muitas vezes descambavam em violência, pela imprudência de se terem queimado os Coroes...


E foi isto, e acima de tudo isto que aprendi ou reaprendi, com a minha vida no Afeganistão... Algo enojado pela dificuldade que as pessoas têm em empatizar com quem é diferente... A facilidade com que se deixam manipular por alguns líderes, conspurcados numa imoral e ignorância que leva grandes e pequenos exércitos a guerras que deixam rastos de dor na história dos nossos dias... Faço um esforço por não transparecer nenhuma análise politica... mas às vezes torna-se difícil para quem acredita que uma vida é uma vida, por vezes torna-se demasiado gritante... e quando “lá” estamos tudo isto se torna ainda mais evidente.... Porque nós somos a mesma pessoa, mas por vezes vemos o “teatro” atrás do palco... quando sentimos o pulso ao povo bem de perto, e ouvimos os ecos das suas emoções...


Quase todos os dias éramos sobrevoados por máquinas de guerra dos Aliados, e nesses dias depois do queima dos Corões, foi dia e noite... aprendemos até a distinguir, os diferentes tipos de aviões e helicópteros, pelo barulho que nos contemplam... Nunca pensei aprender estas coisas, pois odeio guerra e tudo o que tenha a ver com guerra... Mas como consigo reconhecer a espectacularidade de qualquer grande desastre natural... foi no regresso a Kabul no final da minha missão, que fiz um “pitstop” no aeroporto de Kandahar onde vi dos maiores espectáculos da minha vida... O aeroporto de Kandahar, era em conjunto civil e militar o que em boa verdade quer dizer nesta fase do campeonato que é 99% militar. O nosso pequeno avião, teve que aqui parar e fazer troca de mercadoria, e os cerca de 15 passageiros tiveram que sair do avião e ficar na borda da pista à espera de seguir viagem... Foi cerca de uma hora, em que eu estive embasbacado a ver aquele festival de aviação militar, jactos, caças, grandes, pequenos, helicópteros de todos os tamanhos e feitios, drones em bandos.... levantavam e aterravam de seguida sem parar, em grupos ou isolados.... absolutamente incrível... De olhos bem arregalados, pois as regras de segurança são rigorosíssimas proibindo qualquer captação de imagem, e assim tive que guardar tudo na minha memoria.... Mas na minha memória ficaram também os sentimentos que aquela maravilha da tecnologia militar me fez sentir... Enquanto os drones aterravam aos bandos alinhados em V, eu perguntava-lhes(me): Quantos mataram hoje? Correu vos bem o dia? Quantos Taliban mataram? E quantos inocentes? Quantos ficaram para a estatística dos “danos colaterais”? Dos “Ooooppsss enganamo-nos no alvo”? E mulheres e crianças quantas mataram? Será que mataram algum amigo meu que trabalhava no hospital? Será que mataram algum dos meus doentes que me custou tanto a salvar? Mas não tive respostas....
(Kabul)
Em Kabul ainda estive uns dias, a tratar da burocracia do visto de saída.... Deu ainda para me fazer de útil num pequeno hospital dos MSF, e para umas pitadas de “sightseeing” que confirmou o meu primeiro “feeling” inicial: Kabul é das cidades mais bonitas, magníficas e histórica e culturalmente interessantes que já vi... Imponente arquitectura milenar, com um dos Bazars mais antigos do mundo, conta bem aquele que foi o cruzamento de tantas culturas, e tudo isto rodeado por uma cadeia de montanhas a 360º, ladeando e circundando aquela que será das capitais mais imponentes que conheci até hoje...

Tinha saudades de todo o meu mundo, da minha família, amigos e da minha ex, que neste momento me esperava na Índia para umas merecidas férias.... e o meu voo era já no dia seguinte... mas alguém não me queria facilitar a vida....


(imagens reais do Massacre de Kandahar)
Na véspera da minha partida, somos abalados pela transtornante notícia: Um soldado americano em Kandahar (a 200 Km de onde eu estava), num acto inesperado enquanto caminhava pela cidade, sem qualquer contexto bélico entra em várias casas, arrastou pessoas pelos cabelos, disparou a arma à queima roupa, alguns dos disparos na boca das vítimas.... ateou fogo aos corpos e por ai fora.... Matou cerca de 20 civis e outros tantos gravemente feridos, na sua maioria mulheres e crianças, que se encontravam dentro das suas casas, e que foram atingidos por balas que ninguém esperava... Há quem diga que foi mais que um. Há quem diga que houve actos de violência sexual antes da matança... De qualquer das formas a versão que ficou escrita, foi que o Robert Bales de 38 anos chegou ao seu quartel general e disse: “I did it!”. Como podem imaginar, o povo afegão ficou revoltado e saiu à rua em várias cidades a manifestar a sua indignação. E pediam que fosse julgado no Afeganistão... mas como sempre cobardemente foi levado para os EUA, para ser julgado e assim ficou com prisão perpétua....
(imagens reais do Massacre de Kandahar)
Mas o que mais me entristece neste acto bárbaro, é a facilidade com que se relativiza pelos media, e por todo o mundo ocidental a vida de quem vive do “lado de lá”... Talvez porque não existam filmes de Hollywood a mostrar a vida destas pessoas... E como tal para nós são estatística!

(A casa dos MSF no dia do Adeus)
Sendo Kabul o foco de todas as tensões politicas anteviam-se demonstrações populares com um enorme potencial explosivo.... E quando assim é pelo elevado risco de incidentes de violência os MSF decretam que ninguém mexe! Ninguém sai de casa! Zero movimentos! E então e eu que tinha que ir para o aeroporto? Se eu só dependesse de mim, estava tranquilo... Mas tinha a minha namorada à espera na Índia, com voos marcados, etc e tal..... Seria dramático ficar preso em Kabul uns dias.... ainda para mais com a cidade “explosiva”, graças ao Robert Bales... Primeiro os MSF disseram-me que nem pensar... até me vieram as lágrimas aos olhos... rebentar com os meus planos e dela explicar à minha família que não podia sair do Afeganistão durante uns dias, porque o povo está na rua furioso com o mundo inteiro! Mas depois de reflectirem os MSF deixaram-me sair para o aeroporto às 5.00am bem antes da cidade acordar para não correr qualquer risco... Se sair da guerra e reencontrar a pessoa que eu adoro passados 3 meses, já eram motivos para uma libertação excessiva de adrenalina.... todo o contexto do momento, nem me deixaram dormir! Sai de casa de noite, regelado com -20 e tal graus, e com um nevão soberbo...  Como sempre colado à janela do carro, para levar comigo tudo o que conseguir reter.... Nas paredes dos edifícios os desenhos são artísticos, mas não são grafitis.... são rajadas de balas que contam muitas histórias... Impressionante também a quantidade de gente que passa a noite na rua com aquele frio, juntinhos e à volta de uma fogueira... E à medida que a luz do sol vai entrando, Kabul exibe-se esplendorosa como nunca... que cidade tão bonita bem na cordilheira do Hindu Kush!
(estádio de Kabul, onde outrora se faziam as execuções públicas)
Sem incidentes cheguei ao aeroporto, que não deixa dúvidas que estamos em guerra e já preparados para os dias de confrontos que se avizinhavam.... Homens armados, tanques de guerra, são a face do aeroporto de Kabul. Perdi a conta aos “checkpoints” de segurança, cães, detectores de metais, Rx.... tudo, várias vezes! Esperei uma hora a mais para entrar no avião por causa do nevão... e dentro do avião esperamos ainda mais... Dúvidas quanto à possibilidade do avião levantar... e cada vez nevava mais... Passou-me a vida toda pela cabeça. Se eu não levantasse ficava retido no aeroporto, talvez uns dias, sabe-se lá.... Parecia que a guerra que estava a sugar-me para dentro dela e de lá não me queria deixar sair..... ufffff.... que tensão! Amei aquele país e quero muito lá voltar, mas naquele momento só queria sair dali... E quando passado 2 ou 3 horas de espera dentro do avião este se começou a dirigir para a pista de descolagem, ouviram-se gritos de alegria de muitos como eu... Ao descolar, a despedida que faço para comigo desde país que despertou em mim tantas emoções, misturadas com uma vontade louca de ir ter com quem eu gosto, e com o alivio de ver a guerra pelas costas.... chorei como se tivesse perdido a minha família toda... é muito intenso! Fica muita coisa acumulada no peito, e aquele era o momento de o libertar...


(quando dei uma "ajudinha" num hospital em Kabul)

Já nas maravilhas da Índia assisti atento, às consequências do caso do Massacre de Kandahar... embora apenas como um comum espectador que lê as notícias, sentia que ainda tinha deixado para trás um pedaço de mim, que sofria em aperto as dores daquele povo de quem tanto gosto... e morreu muita gente que se manifestava contra a presença dos Aliados no seu país...

E 5 anos passados ainda lá tenho esse pedaço de mim, com a promessa que um dia vou lá voltar.... deixar outro pedaço...



E agora é tempo de respirar bem fundo e começar a escrever sobre a Síria...


quinta-feira, 2 de março de 2017

Pão e Laranjas


  

Há qualquer coisa de mágica sobre o Afeganistão... Todos os países têm o BI do seu povo e da sua terra e o do Afeganistão é bem forte... Localizado numa fronteira entre mundos, sempre foi a terra dos Afegãos... Gente de carácter vincado, sólido e inspirador... Triste é que aos olhos de quase todo o mundo se trata apenas de uma campo de batalha... quando é tão mais do que isso...

Não fui à procura de mais do que o óbvio, a sua história e o seu povo, que por acaso habitam num pais lindíssimo...

A sua história intercepta quase todos os grandes capítulos e civilizações da humanidade... Rota da seda, a ligação do médio-oriente ao extremo-oriente, o tampão entre a Rússia e o sub-continente Indiano.... Passagem de grandes campanhas imperialistas, desde Alexandre o Grande, Genghis Kan e o Império Mongol, os Árabes Muçulmanos, os Soviéticos, os Britânicos... e no entanto nunca deixaram de ser o que são: Afegãos, orgulhosos o fieis da sua própria língua e identidade, inquebrável ao longo dos tempos...

E esta história é sobre este povo, sobre tudo e sobre nada, sobre pão e laranjas... Sobre as maravilhas de um país que me impressionou e me deixou completamente apaixonado... E por isso gostava que vissem, o que eu vi, sentissem o que eu senti e certamente de lá sairiam também maravilhados...

O espírito guerreiro dos Afegãos impressiona... poucas vezes senti que a expressão “antes quebrar do que torcer”, fizesse mais sentido... E admirava-os por isso. A fisionomia não difere muito da dos latinos, morenos mas não escuros, corpos magros, mas ultra-resistentes parecem ser feitos de uma fibra diferente... Até as poucas vestes que usavam num dos invernos mais rigorosos que já vi me impressionava... Temperaturas que facilmente baixavam dos -20ºC, não lhes mandava a moral abaixo.... ao ponto de assim andarem de sandálias abertas... Mas esta pose confiante, altiva e destemida, era acompanhada na mesma dose duma doçura e duma sensibilidade que conquista até os mais desatentos... Entra a guerra e a resiliência de quem sabe o que quer e o que não quer, está sempre um sorriso doce e até infantil.... de quem dá todo o seu eu a quem vem por bem... Os braços fortes e corajosos que se abrem para dar o corpo às balas, abrem-se também para dos abraços mais sentidos que já recebi em toda a minha vida... Um abraço hospitaleiro, onde entre os 4 braços se sente a energia, de quem jura pela sua morte que ali residem as boas-vindas... de quem no seu código de honra, depois de deixar entrar alguém na sua vida, ali ficará bem recebido para sempre... Algo de tão bonito e que infelizmente não encontro paralelo no nosso mundo ocidental, dito civilizado...

Este código de honra dos Pashtun, não tem paralelo e quem o sente, sente-se tocado para todo o sempre... “Tu estás aqui, tu és meu amigo, tu és meu convidado.... Tu ficas em minha casa, tu comes da minha comida.... eu dou a minha vida por ti!”,  a isto se tem chamado Pashtunwalli, “o código de vida” ou “a forma de viver dos Pashtun” .... E sentimos tudo isto num abraço, que nos vai conquistando, e nos deixa encantados com o seu modo de vida...

E é entre estes abraços, que fazemos a nossa vida... Sempre stressados ao estilo ocidental, a querer fazer tudo e mais alguma coisa para salvar vidas, e pôr o hospital a funcionar com qualidade, as nossas mentes são computadores, sempre em “overload”.... E estes abraços trazem-nos à terra, relembram-nos onde estamos, quem é esta gente, o que é que ela sente, e o que sente por nós... uma admiração e gratidão eterna... por lá estarmos a salvar os seus... Estes abraços fazem-me  morrer de saudades do Afeganistão, enquanto prometo a mim mesmo, que se a vida correr como gostava, um dia hei de lá voltar...

Os motoristas, os guardas, os cozinheiros, desfaziam-se em sorrisos à proporção da sua falta de inglês, cada vez que me viam... e mal eles sabem quantas vezes me levantaram a moral, quando me sentia num poço sem fundo... E percebemos que por trás daquele coração de guerreiro, está quase sempre um homem sensível, que sente e nos sente, e com vontade de nos sentir bem... São sorrisos que nos ensinam, que valem os perigos que corremos, que nos trazem a deliciosa sensação que temos tanto a aprender.... e que aconteça o que acontecer é no nosso carácter e na nossa honra, que reside a magia da mossa felicidade...
 
E aprendi também a ser feliz nas pequenas coisas, a cada Xai, a cada conversa, e cada vez que saboreava aquele que classifico como o melhor pão do mundo! O pão do Afeganistão! O “Naan” (pão em Persa), acompanhava todas as refeições do nosso dia e era absolutamente maravilhoso. De forma oval ou rectangular, bem grosso e estaladiço, era cozido em fornos subterrâneos.... ou seja buracos no chão bem fundos onde a massa do pão era colada à parede profunda, ficando fora da nossa vista...  Sempre que tinha oportunidade (que era raro dado as nossas restrições de liberdade), contemplava este incrível processo de como fazer este pão... Para muitos dos locais era alimento único... para nós que éramos “ricos”, acompanhava o Keebab (carne), e toda a gastronomia local super rica em especiarias que quase hipnotizam.... Muitas vezes  este pão assumia um formato de prancha de surf, o que me ajudava a sonhar, e a matar saudades do mar... A todas as refeições chegava-nos pão fresco... e fazia as delícias de todos os que como eu nunca tinham provado um pão tão maravilhoso....

E as laranjas? Falta-me a arte da descrição, para transmitir o que são as laranjas do Afeganistão.... Docíssimas, e de casca solta, ideal para os preguiçosos como eu, chegavam-nos ao preço da chuva.... E eram invariavelmente maravilhosas... Não sei se a incrível amplitude térmica daquele país propicia o crescimento desta fruta com uma qualidade para mim, sem paralelo... O que é facto, é que adocicou a minha estadia e de que maneira, num pais e numa região envolta numa guerra terrível e numa dura realidade...

Viver sem poder sair de casa é duríssimo, sentir que há um país e um povo fantástico a toda a nossa volta e nós quase sempre rodeados por quatro paredes é triste... e o pouco que vi da cidade onde vivia (Lashkar Gah), foram as 3 rotas diferentes que fazíamos de carro, alternadas para que os nossos trajectos não fossem previsíveis.... evitando potenciais ataques... Mas dentro de todas estas adversidades os pedaços de Afeganistão que nos chegavam, foram suficientes para ficar apaixonado para sempre por este país...

E a magia da vida está nas pequenas coisas... nos sabores, nos sorrisos, nos olhares e nos abraços... E nos abraços de despedida, no dia em que me vim embora, senti uma amizade e uma gratidão eterna, que gravei na minha memória até hoje... Foram muitos, mas houve um que me marcou em particular. Questões burocráticas com o visto, fizeram-me ter que regressar uns dias mais cedo do que pensava a Kabul... E no dia em que me despedi do hospital onde estive quase 3 meses, tinha as malas prontas, mas sem saber se havia lugar para mim no avião da Cruz Vermelha que me levaria a Kabul. E por isso não houve lugar a despedidas nem dos meus companheiros expatriados, nem da minha maravilhosa equipa de Afegãos... Quando tive a confirmação que ia embora, triste e já nostálgico, engoli em seco e rapidamente percorri o hospital para me despedir de quem encontrei, com fortes e sentidos abraços.... alguns ficaram por dar, principalmente de alguns enfermeiros que trabalhavam comigo no bloco operatório... Uma roleta-russa de emoções... quando encontro o Dr. Nasrullah, o chefe de serviço da Cirurgia... convivemos diariamente e nem sempre foi fácil... Dr. Nasrullah ao seu estilo de ditador, liderava todos os acontecimentos cirúrgicos daquele hospital... e várias vezes choquei com ele, por opiniões médicas discordantes, que me causavam alguma revolta... pois nunca conseguia trazer a discussão ao nível da ciência... e quase sempre vencia a opinião dele, sustentada no “eu sempre fiz assim, quem és tu para me dizer o contrário”.... Eu educadamente tinha que partir muita pedra, para conseguir pequenos avanços... Trazia livros, imprimia documentos, provava por A + B, o estado da arte da Medicina, mas de pouco me valia.... Lembro-me um dia a propósito de um adolescente, com um Traumatismo Cranio-Encefálico grave, vítima de uma bomba, em que o Dr. Nasrullah insistia em prescrever Corticoesteroides.... e eu insistia que estavam contra-indicados.... Trocamos opiniões médicas de uma forma acesa, mas ele venceu fácil esta disputa ao seu estilo austero, irredutível... porque haveria ele de ouvir a opinião de um jovem Anestesista com metade da idade dele... ele que já viu tanta coisa, tantos anos de guerra... e ali estava firme e hirto... No dia a seguir, eu chego ao hospital cheio de diplomacia e muito humildemente com as guidelines de “Traumatic Brain Injury”.... E mostrei-lhe: “Do you see, according to the international guidelines the corticosteroids are contra-indicated!” .... A resposta dele foi simples: “Not in Afghanistan!” ..... KO fácil... Pese embora estes momentos, sejam difíceis de digerir, ia conseguindo pequenas conquistas, com impacto importante para os doentes... Na gestão de antibióticos, na preparação pré-operatória... pequenas/grandes vitórias.... Mas acima de tudo respeitava-o, pois era um homem trabalhador, e um médico dedicado aos doentes... pouco frequente naquelas bandas.... vinha ao hospital a qualquer hora operar se fosse preciso... e nunca o vi virar a cara a nenhuma luta que implicasse meter o doente na mesa operatória, e dar tudo para lhe salvar a vida... era quase desprovido de exteriorização de sentimentos, mas parecia-me um homem bom... E nesse dia em que fui embora, cruzei-me com ele... E dei-lhe um abraço... Um abraço forte... acho que foi a única manifestação de humanidade que tivemos em 3 meses.... Vieram-me as lágrimas aos olhos... E naquele silêncio ficou um “eu sei que tu sabes, que sabes que eu sei!” .... travamos duras batalhas um contra o outro, e duríssimas batalhas juntos pelos doentes.... e penso que ficou um enorme respeito e admiração recíproca.... de quem ao seu estilo dá o seu melhor!

O Afeganistão é um país maravilhoso, cheio de coisas maravilhosas e com um povo maravilhoso....


É importante que o mundo saiba!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Entrevista para a Rádio Sim/Renascença

Partilho aqui a entrevista que fiz há dias para a Radio Sim/Renascença . A partir dos 12´15´´, tive das conversas sobre os Médicos Sem Fronteiras e a Medicina Humanitária que mais gostei até hoje. A excepcional preparação da entrevista, levou-me a conversar muito abertamente sobre assuntos cuja profundidade nem sempre é fácil de atingir. Foi das poucas vezes q fiquei com vontade de ouvir o que disse, porque sai muito sensibilizado e em contacto com os meus sentimentos q considero mais bonitos.
"Se um dia me acontecer alguma coisa, espero que não valorizem mais a minha vida do que a daqueles pelas quais luto e que os Médicos Sem Fronteiras representam!"

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Triplete

República Centro-Africana, Bangui, 2016

Há dias bons e dias maus...

Doentes que morrem que não "precisavam" de morrer... Por vezes os desafios, estão nas mais pequenas coisas... O calor, as regras de segurança, os telefones q mal funcionam... Há dias, q as noites mal dormidas, e as frustrações profissionais, nos levam a pôr tudo em causa! Mas há dias bons, dias mágicos, em que nos sentimos a contribuir, por um mundo melhor...quando vemos a formação contínua a ter efeitos prácticos e significativos, quando doentes graves melhoram e saem do hospital com um sorriso.... Mas talvez o momento que uniu toda a equipa na magia duma simbólica consagração, foi neste momento "triplete"! 3 rapazinhos centro-africanos, nasceram cheios de saúde, e a mãe arregalou os olhos de alegria :))) O milagre da vida x3, numa terra onde quase só há pesadelos, renovou as energias de toda a equipa dos Médicos Sem Fronteiras, q insistem a prestar cuidados de saúde de qualidade a gratuitamente um pouco por todo um país que não tem nada! 47, 48 e 49 foram minutos mágicos, na Maternidade de Bangui! E por vezes a vida é bela :)))

Faz com que isto chegue muito longe!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Quando há Sol, não é para todos!

Quando há Sol, não é para todos.


Estava com medo. Não sou diferente dos demais, uma guerra assusta. E os contornos que esta guerra civil atingiu, com uma enorme exposição mediática, faziam-me crer que seria diferente das outras... Esta foi a minha 4a guerra, enquanto médico a trabalhar para os Médicos Sem Fronteiras, depois de Congo, Paquistão e Afeganistão. A experiência ajuda a lidar com as emoções, pois esta missão não seria claramente para principiantes. No entanto, é doloroso entrar no avião, deixar a sofrer as pessoas de quem mais gosto, e ao olhar para baixo pela janela do avião, despeço-me da minha querida cidade do Porto, com uma lágrima no canto do olho, não sabendo se não será a última vez que vejo este meu grande amor, e tudo o que ele representa para mim... Tenho medo, mas nem hesitei, quando me foi proposto ir para a Síria. As minhas motivações superam largamente os meus medos...talvez ao ler este texto compreenderão porquê.

Por vezes perguntam-me: “ Como é possível arriscares a tua vida?” Normalmente sorrio, enquanto respondo para dentro em silêncio: “Como é possível não o fazer?”

Fui sozinho, directo para a Turquia, com o meu cachecol do FCPorto, que tem super poderes, porque representa os que levo comigo, enche-me o coração, e faz-me sentir mais forte. Aterrei na cidade de Hatay, já bem perto da fronteira com a Síria, onde se reunia esta equipa, que iria reabrir o hospital no norte da Síria, que fui evacuado pela crescente ameaça do Estado Islâmico. Não há tempo a perder, fui directo para uma reunião, onde nos explicavam o plano, de como iríamos entrar na Síria, esmiuçando todos os cuidados a ter, assim como, todas as regras de segurança... O coração aperta, e sinto um nó na garganta, quanto vemos no mapa os cerca de 250 Kms, que teremos que fazer de estradas na Síria, com diversas zonas, onde os bombardeamentos são frequentes....e começo aqui a sentir a guerra.

Nessa noite, achei ouvir bombardeamentos, pois já estava muito perto da Síria, mas provavelmente era o meu imaginário.

No dia seguinte viajamos até à cidade Killis, pois embora longe seria o único ponto de fronteira em que a Turquia nos permitia entrar. Killis, fica já colado à fronteira com a Síria, e nas imediações o nosso campo de visão, é invadido por campos de refugiados sírios, e vemos nas suas caras a dor de um povo, órfão de um pais, com uma alma sofrida e massacrada. Nessa noite, a última antes de passar a fronteira, vamos beber a última cerveja, porque na Síria estamos proibidos, e nesse que era o único bar de Killis, um grupo de homens Sírios, bebem e dançam uns com os outros como se não houvesse amanhã....leio no seu desprendimento uma mistura explosiva de alegria por terem fugido à guerra, com a tristeza profunda de quem abandonou a sua amada pátria...muito intenso. Fez-me pensar...

Bem de manhãzinha, atravessamos a fronteira....a pé! Pois não são permitidos veículos. A policia turca carimba o nosso passaporte, e depois fazemos uns Kms a pé bem carregados, em sentido contrario ao dos refugiados... e do lado de lá, na Síria, não há ninguém para nos carimbar o passaporte, mas sim, uma série de homens armados, de aspecto duvidoso, mas são do Free Syrian Army (moderados), a oposição ao regime que luta pela democracia, contra o ditador Bashar Al Assad. Aqui temos 2 carrinhas à espera, e partimos em direcção ao nosso destino, perto de Idlib, bem próximo das linhas da frente do conflicto... As nossas 2 carrinhas, têm o logo dos MSF, assim como escrito em árabe “Médicos Sem Fronteiras”, e é apenas isto que nos protege... Atravessamos uma boa parte do norte da Síria, e eu vinha colado à janela a absorver esta paisagem, absolutamente lunática, com vilas e aldeias abandonadas, onde as marcas de guerra, com casas bombardeadas, não deixam dúvidas dos porquês de quem largou tudo... Em alguns momentos passamos por 4x4s de caixa aberta com metralhadoras enormes, que nos dão um friozinho na barriga, bastante desconfortável, mas vamos nos habituando....torna-se normal a presença da máquina de guerra....

Talvez o momento que guardo com mais carinho até hoje, terá sido a nossa chegada à vila que seria a minha casa e onde se encontrava o pequeno hospital... Os locais sabiam da nossa chegada, e celebraram este momento...de uma forma que até dói na alma tentar descrever...não consigo segurar as lágrimas ao transmitir-vos isto... Gritos de alegria, olhos húmidos de emoção, palavras e abraços quentes a pessoas (nós) que não conheciam....o excitamento daquele povo transbordava em cada respiro: Os Médicos Sem Fronteiras voltaram! Isto significa que a ausência total de cuidados de saúde num raio de dezenas ou centenas de Kms, acabou...mas muito mais do que isso...sentem que nem todos os abandonaram...a nossa presença personifica a esperança, de quem já não sabe a que se agarrar...e só ai sem ter salvo (ainda) nenhuma vida, já clarifiquei na minha cabeça, que valeu a pena, ter deixado os meus queridos a sofrer em Portugal. Percebem agora?

Os MSF, tinham evacuado este hospital, pela transformação do contexto cultural, devido à pressão da radicalização de grupos extremistas, que cada dia mais condicionavam todos em seu redor... As pessoas viviam com medo duplo: do sanguinário ditador, que não hesita em matar quantos pode, e este oportunismo de grupos radicais islâmicos, que moldavam e aterrorizavam, todo um povo bastante moderado e humanamente fantástico...

Numa gelada manhã de inverno, na minha inocência apreciava um bonito nascer do sol, num céu azul até perder de vista, e comentei com os locais que trabalhavam comigo: “Que lindo dia de sol!” ...mas a resposta foi pronta e muito clara....”Está um dia horrível....o céu está limpo...eles vão voar!” Engoli em seco, e congelei em silêncio, e não tardou muito a avistar um MIG, da força aérea Síria, a sobrevoar a zona, a escolher os alvos a bombardear.... É no mínimo estranho sentirmo-nos um alvo, só porque sim.... E ai, dei por mim a desconstruir, uma verdade universal, da minha visão mágica e holística da vida e da sua verdadeira essência: “Quando há Sol é para todos!” .... Não! Para alguns, um dia lindo, significa temer pela vida, e olhar os céus, à mercê de maldades atrozes, e impotentes perante a força da ganância pelo poder....

“Quando há Sol, NÃO é para todos!”

Várias vezes nos refugiávamos num bunker do hospital quando éramos sobrevoados, por aviões ou pior ainda pelos helicópteros... Assim como passei noites no bunker da casa, quando os rockets aleatórios, faziam tremer o chão estrondosamente....mas senti-me bem, pela magnitude do significado que dava à presença dos MSF, num cenário tão complicado.

Sou médico, fico feliz quando sinto que fiz a diferença, quando salvo vidas....e salvamos muitas, crianças, mulheres, velhos e novos, inclusive homens de grupos extremistas, que se calhar noutra circunstância nos poderiam querer fazer mal, mas nós não julgamos....nós salvamos vidas! E guardo com um prazer indescritível, momentos de horas e horas de trabalho, para cumprir a missão a que me propus, e que define todos aqueles que acreditam nos mesmos ideais que eu! E será essa a minha grande conquista pessoal...as vidas que eu salvei, e que no imediato me fazem sentir especial, e me motivam para continuar....mas esta é apenas uma das razões que faz tanto querer ir.... A outra é bem maior! A outra é por ti que me estás a ler... É por todos que sei que os MSF representam, por este mundo fora... É pelos milhares que não se conseguem fazer ouvir, que não querem mais guerras...que preferem mandar ajuda ou invés do ridiculamente estúpido contra-senso de mandar mais bombas.

Eu, Tu, Nós, os Médicos Sem Fronteiras, e muitos mais, levam à letra a premissa que sustenta a humanidade: Todos os Seres Humanos são Iguais!

E o meu convívio de grande proximidade com o povo Sírio, em que nas suas histórias de vida, me imaginava, vezes sem conta, no exercício, que embora doloroso é onde eu encontro a minha alma mais bonita e acima de tudo mais honesta! E se fosse a minha família? E se fosse a minha casa? E se fosse o meu pais? Que pensaria eu de uma inteira humanidade que (n)os abandonou?

“Quando há Sol, não é para todos!”

Lá passei o meu Natal. Tive saudades, mas não me custou muito. Custou-me sim, o dia, em que me fui embora, e um dos nossos tradutores, agora amigo Faut, me foi levar à fronteira por questões de segurança. Odeio despedidas... são demasiadas emoções. Mas esta foi claramente a pior! Eu vinha embora, a caminho da minha segurança e conforto, e assim virava costas a pessoas que sei porque o provaram, que davam a vida por mim, e foi neste turbilhão de emoções, que o Faut de sorriso na cara à medida que me afasto de mochila às costas me diz: “ Dont forget about us, Gustavo!”, e de rajada respondi: “Never, my dear friend, Never!” bati no coração com muita força e sorri... rapidamente virando as costas, para que ele não visse, que me ia desfazer em lágrimas...

E com isto, podia contar-vos mais mil e uma histórias, para que exercitassem, algo que tem tanto de difícil como de importante... a capacidade de empatizarmos com vidas que nos parecem longínquas, e depois apenas e só agir, como gostaríamos que agissem connosco.

Honestidade e Justiça....porque,

“Quando há Sol, Não é para todos!”



domingo, 27 de novembro de 2016

A Ignorância

(Afeganistão – Helmand – Lashar Gah -- 2012)

Nesta história que me marcou de sobre maneira, simbolizo também o reforçar de uma das primeiras conclusões humanitárias se assim lhe posso chamar... A intensidade de viver não só o problema, mas viver no problema, para alem do meu trabalho clínico e de formação, leva-me obviamente a uma reflexão diária dos “porquês”, destas catástrofes humanitárias que tenho vivido de bem perto...

Se nos países ditos desenvolvidos, a esperança média de vida anda à volta dos 80 anos, numa série de países em África principalmente mas também outros ou outras zonas, dos quais o Afeganistão é também a cara desse paradigma, em que este numero anda perto dos 40 anos... Dá que pensar...é uma vida pela metade das nossas! E como podemos de uma forma muito simples dissecar este número trágico? Se a guerra que aqui dura desde início dos anos 70s, de uma forma quase ininterrupta, tem morto muita gente... é em mortes ainda mais estúpidas e evitáveis, que teremos que concentrar o nosso foco... A falta de cuidados de saúde é que explica na quase totalidade esta discrepância catastrófica nesta e noutras zonas do planeta.. que entenda-se é sem dúvida de uma forma indirecta imputável ao perpetuar da guerra... E não é por não se fazer cirurgias muito diferenciadas, ou por falta daquele último medicamento ultra caro, que este número cai para metade... É pelas crianças que morrem por tudo e por nada, pelas infinitas mortes durante o parto... basicamente pela ausência, ou falta de qualidade total dos cuidados de saúde mais básicos.... e por isso o orgulho de trabalhar para os Médicos Sem Fronteiras, não cabe sequer dentro de mim...

Salvamos vidas, que mais ninguém salvaria, de uma forma totalmente gratuita, indiscriminada, e imparcial... A canalização das nossas forças é apenas e só proporcional às necessidades...e isso é lindo! Deixamos um legado de boas intenções, de paz e sementes de esperança do ocidente.... assim, como boas doses de conhecimento a profissionais de saúde, e não só. E talvez nesta perspectiva formativa, não imediata, que revejo as minhas maiores motivações principalmente a longo prazo... porque as milhares e milhares de vidas que nós salvamos, não chegam, temos que deixar um legado de continuidade...

Porque a dita conclusão “brilhante”, a que cheguei no fim da minha 1a missão e que reforcei em todas as outras, é que a Ignorância é a “doença”, que mais mata nos países subdesenvolvidos... O que me leva a concluir também que embora eu ache que ser médico é a profissão mais bonita do mundo... não seja talvez a mais importante... daí que bem mais difícil, mas mais relevante seria ter uma rede fortíssima de Professores Sem Fronteiras... difícil, eu sei... mas deixem me sonhar! Embora, os Médicos Sem Fronteiras, façam também um trabalho incrível, fora dos hospitais com “Promotores de Saúde”, que andam de porta em porta de comunidade em comunidade, a explicar coisas básicas e essenciais, sobre cuidados de saúde primários, e a importância de recorrer aos nossos hospitais antes que seja tarde, isto muitas vezes em povos cuja a ignorância é de tal ordem, que negam ou desconhecem a medicina como nós a vemos...

E já vi um sem número de vezes, doentes ou as suas famílias a recusarem tratamentos “life-saving”, por ignorância, descrença, desconfiança... E quando eu estive no Noroeste do Paquistão, havia para mim um “bicho-papão”, chamado Peshawar! Cidade linda e maravilhosa (onde eu adorava ir e nunca fui), capital de província do Noroeste do Paquistão, de uma importância estratégica brutal, pela ligação “directa” a Kabul, e uma das cidades mais intensas e “bombástica”, da resistência Taliban e da Alqaeda... E eu estava a cerca de 5 horas a norte de Peshawar, num hospital pequeno mas de enorme qualidade dos Médicos Sem Fronteiras... E este “bicho-papão” chamado Pesahwar, engoliu-me logo no primeiro dia em que cheguei, numa história que já escrevi e chamei, “Benvindo ao Paquistão!”...

E aqui no sul do Afeganistão, o “bicho-papão”, chamava-se Paquistão! Na cabeça daquela população que vivia em cenário de guerra desde “sempre”, onde os cuidados de saúde eram paupérrimos, o Paquistão parecia ser o El Dorado, a cura para todos os males, mais concretamente a cidade de Quetta, capital de província, e que ficava a cerca de 6 horas de viagem, por esta terra de Pashtuns, cuja fronteira politica pouca interessava... Nos casos clínicos mais complicados, para a população era a tentativa de procurar “algo mais”, e talvez para os médicos locais fosse um alivio, que estes doentes fossem pelos seus meios, para fora da sua vista... para mim era uma dor de alma, saber que este Paquistão pouco mais poderia oferecer aos doentes, e em muitas situações certamente com muito menos qualidade que o standart fantástico dos MSF... E tudo isto por ignorância e pela dificuldade de quebrar este mito que me assombrava... este pais que eu adoro, agora ao ser mencionado “Paquistão”, fazia com que eu ficasse irritado, enervado e revoltado...por alguns casos que me passaram nas mãos...
Os nossos Cuidados Intensivos

Lembro-me bem numa manhã como as outras, chegou ao hospital um rapaz novo, previamente saudável forte e robusto, nos seus 20 anos, chegou à urgência e depois ao que se chamava de Cuidados Intensivos (que de intensivo tinha muito pouco!) em coma... Ou seja, inconsciente, rijo como uma barra de ferro, numa respiração de stress e a espumar-se pela boca... Família em pânico, e não era para menos, e os médicos afegãos, num rodopio de pensamentos médicos que pareciam fazer pouco sentido... Tentei saber o que se passou, que era sempre o mais difícil para mim, não ficar “lost in translation” de Inglês-Pashtun... E então o rapaz estava a trabalhar, a rachar lenha e subitamente sentiu uma dor de cabeça muito forte e depois caiu para o lado, ficando neste estado de coma... Isto obviamente acendeu várias luzes na minha cabeça... e o facto de ter já uma boa experiência em doentes neuro-críticos em cuidados intensivos.... fez me pensar que provavelmente teve uma hemorragia cerebral espontânea, mais concretamente uma rotura de aneurisma cerebral, ou malformação arterio-venosa... E claro, com toda a humildade o digo, que a partir deste momento nenhum dos locais está capaz de seguir o meu raciocínio...e olham para mim, com um mistura de descrença e admiração... Na ausência de TAC cerebral, só me restava uma alternativa para lhe fazer o diagnóstico, fazer uma punção lombar na procura de sangue no liquido cefalo-raquidiano... E assim foi, com alguma dificuldade em posiciona-lo lateralmente, pico-lhe as costas, e supresa não tive, quando com o liquido cefalo-raquidiano sai também sangue numa quantidade impressionante... até repeti o procedimento na dúvida se não lhe tinha picado uma veia.... mas não, era mesmo liquido cefalo-raquidiano cheio de sangue... E na minha mente está feito o diagnóstico e resignadamente também o prognóstico... Não há nada a fazer... pela história clínica, pela profundidade do coma, pela quantidade de sangue que tem no cérebro.... este rapaz vai morrer... e mesmo no 1º mundo com acesso a Cuidados Intensivos, Neurocirurgia, Neuroradiologia de intervenção, provavelmente morreria ou ficava um vegetal... É triste, é frio, é terrivelmente doloroso para a família deste rapaz, mas enfrentei-os e com a tradução de um médico afegão, expliquei-lhes o sucedido detalhadamente e oferecendo a possibilidade de fazer cuidados paliativos a este rapaz oferecendo-lhe uma morte digna e em paz... dando-lhes a hipótese, de me interrogarem para qualquer esclarecimento, a única pergunta que me fizeram foi “Podemos levá-lo para o Paquistão?” É difícil de travar o ímpeto de quem quer fazer tudo pelos seus.... mas esta família pobre, iria ter que vender tudo, endividar-se, passar por zonas de conflicto aberto, atravessar a perigosa cidade de Kandahar, pagar a fronteira, e ainda pagar rios de dinheiro por sabe-se lá o quê no hospital em Quetta, no Paquistão... transportando num carro banal, este rapaz em coma, com uma hemorragia cerebral, estando eu absolutamente seguro que seria em vão... Não consegui dissuadi-los... dei o meu melhor por este rapaz, que neste caso tristemente era apenas deixá-lo morrer em paz... Nem quis olhar ou imaginar o transporte e o trajecto, todo este cenário mórbido de um triste fim de vida... A Ignorância ganhou mais uma vez... e eu acumulei, mais uma pesada derrota...

Mas dos casos clínicos que mais me marcou, mais intrigou.... foi o de uma rapariga nova, com 20 e poucos anos, que num certo dia nos apareceu no hospital... O que ela tinha até hoje não sei ao certo.... e a sua história clínica já arrastada há meses/anos não tornava a leitura nada fácil... Esta doente tinha uma espécie de infecção crónica que envolvia a pele e os tecidos moles de todo o abdómen/pelve, raiz das coxas e zona perineal.... O aspecto era assustador, com um misto de carne viva e crostas... e as consequências ainda mais dramáticas... Estava totalmente acamada há muito tempo, completamente desnutrida, sem massa muscular nenhuma, com escaras de pressão e anérgica... Sem expressão, sem sentimentos.... até aparentemente demasiado fraca para ter sofrimento... ou seja, se o tinha, não o expressava... Dramático! Admirei muito o Dr. Nasrullah director da cirurgia que teve a coragem de a tentar tratar... e assumi com um misto de perplexidade e entusiasmo o desafio de a tentar manter viva, durante as cirurgias que aí viriam, e o internamento prolongado, que foi um dos maiores desafios médicos que já tive... O plano era complexo, e as perspectivas muito realistas... Lavagens cirúrgicas, antibióticos, transfusões sanguíneas pela anemia, e uma nutrição adequada, e com objectivos de fisioterapia.... A família, estava super preocupada, e já tinha tentado vários tipos de tratamentos... sabe-se lá onde ou em que condições e com que medicamentos....num pais, onde existia uma enorme força de uma pseudo-medicina e mercado negro de medicamentos de qualidade muito duvidosa ou mesmos falsos...por todo lado. E assim foi, levá-la ao bloco sem saber se ela aguentava a intensidade da anestesia/cirurgia.... fazendo lavagens do que parecia infectado... hidratá-la, alimentá-la... quase dia sim dia não, uma transfusão sanguínea, antibióticos sem fazer ideia que tipo de microorganismo poderia ser responsável por esta infecção, ou que antibióticos já teria feito antes... Foi uma duríssima batalha, mas parecia muito lentamente estarmos a dar alguns passos positivos, nomeadamente na reabilitação e no seu estado geral... Agarrei-me aos livros à noite, a tentar estudar várias coisas e nem sei bem o quê... tudo o que me pudesse orientar a contribuir para a evolução deste caso dramático....numa rapariga tão nova... Passava por ela, 2 ou 3 vezes ao dia, para me certificar da sua evolução e na tentativa de orientar os enfermeiros motivando-os para a sua reabilitação/recuperação... Perdi a conta às vezes que ela foi ao bloco operatório nas 2-3 semanas que esteve connosco... E estava a melhorar...mas claro ainda num espectro de gravidade e complexidade muito elevados.... Sabendo que depois de lhe tratar a infecção, iria precisar de meses ou anos para recuperar da caquexia e da sua limitação funcional.... Até que numa manhã, em que chego ao hospital me deparo com a cama dela vazia! “Onde está a doente?” ....e um enfermeiro responde-me prontamente: “Foi para o Paquistão!”

Foddaaassssssseeeeeeee!! Que merda! Dediquei juntamente com o Cirurgião, horas e horas, fomos exaustivos nos cuidados e até nas explicações à família e levam a doente sem sequer nos dizer nada?!?! O Dr. Nasrullah, apesar de todo o seu esforço... mostra-se mais resignado por certamente já ter vivido tantas e tantas vezes isto.... Mas eu revolto-me! Na ingenuidade utópica de quem não quer aceitar que mais uma vez a Ignorância me tenha derrotado outra vez... Estávamos no caminho certo... longo e penoso, mas o certo... mas a família não compreendeu... queria uma cirurgia ou um medicamento mágico que lhe salvasse a vida... e assim renunciou os nossos cuidados de qualidade e grátis... para transportá-la em condições inimagináveis e perigosas, gastando todo o seu dinheiro... para um hospital onde lhes iriam cobrar a peso de ouro, sem nada mais que nós para lhe oferecer...

E a rapariga até estava a melhorar... mas mais uma vez perdi para a Ignorância...


Para alem de profissionais de saúde, a solução para estas catástrofes humanitárias, passa pela formação... pela educação, pela luta contra esta terrível doença que mata mais que todas as outras... a Ignorância!
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