segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Women with no names - (part 2)



(se quiserem sentir a música dos Pashtun, carreguem no play, acima)


Matosinhos, 31 de Outubro de 2013,


São os meus anos, não trabalho, e está uma magnífica manhã de Outono. Tenho a sorte de poder dar a mim próprio o presente que eu quero. E acordo de manhã, numa longa conversa comigo próprio na tentativa de responder da melhor forma : O que é queres fazer, Gustavo ? O que é que gostas de fazer, Gustavo ?
Não é fácil, gosto de tanta coisa, há tanta coisa que me apaixona.... Mas como vêem, decido escrever . Sento-me em frente ao mar, a grande janela do meu mundo, o meu carregador universal de baterias, o sítio onde tudo começou, o início de todas as minhas histórias , este mar que me viu crescer a quem eu peço que um dia me veja partir.....e penso, vivo e revivo, lanço a corda para dentro das minhas memorias de forma a resgatar os acontecimentos que vos quero contar hoje e para sempre.

Um dia magnífico, no conforto do meu mar, viajo no tempo e no espaço, para Março de 2011, Timergara, Província do Noroeste, Paquistão.

......

Interrompo a minha escrita, não tinha a paz de espírito necessária no meu dia de anos, para voar na minha mente.....continuo 4 dias depois a minha viagem ao meu passado....

Aqui vamos nós......

O ar é pesado, há uma pressão no ar, as proibições sufocam-me, e o sentimento de o que é ser um prisioneiro cresce dentro de mim. A motivação é grande, pois os MSF, não desiludem, se lá estamos é porque é mesmo preciso..... A região é pobre, pobre, pobre.... o inverno é rigoroso e as condições de vida são miseráveis....

Entenda-se que quando me refiro ao Paquistão, falo apenas desta zona, pois é um pais imenso muito heterogéneo e com realidades muito dispares.... Pois, o Paquistão que eu vivi é hardcore, é forte, é perigoso e intenso, faz-nos amar e odiar o mundo no mesmo dia, mas apesar de ter levado das maiores pancadas emocionais da minha vida, saí de lá com a alma quente e cheia de esperança num mundo melhor....


A Província do Noroeste, é brutal, a beleza das montanhas que a rodeia, esconde um dos maiores problemas que certamente o Séc. XXI enfrentará.... O Islão radical. Esta zona do planeta, parece esquecida, a sensação é que a Terra, não é redonda e que aqui é o fim do mundo... Pois ninguém chega aqui e muito pouco de aqui sai....

Dos povos mais afáveis que eu já conheci, pelo menos no que aos homens diz respeito, pois as mulheres ...... não as conheci. Todos os dias, à medida que ia criando laços de amizade e confiança e por que não dizê-lo admiração mutua, o cumprimento local fazia mais sentido. Explicaram-me muita coisa nos briefings culturais, mas esta foi uma surpresa para o tereno.... Vinham de braços abertos, eu pensava que era um abraço, mas surpreendiam-me com um "quase abraço", em que descoordenadamente não percebia, em que a sua mão direita vinha ao meu peito e esquerda ao meu ombro direito.... Os guardas, os cozinheiros, os enfermeiros e os médicos, não são indiferentes ao nosso esforço, às noites sem dormir, ao trabalho até à exaustão, ao prazer de dar o exemplo e liderar pela inspiração..... E assim eu começava a perceber o que significava......., o toque , a energia, o olhar fraterno e agradecido.... ao aproximarem-se de braços abertos para mostrar que vêem em paz, sem armas, e o primeiro contacto é a mão direita directa ao nosso coração, furando a nossa guarda, tocam, sentem e avaliam, como está a nossa saudade e os nossos sentimentos, deixando que este rápido momento, este manómetro de vida, preceda um “Asalam aleikum” ( que a paz esteja contigo).... ao mesmo tempo que completam o cumprimento com um firme aperto de mão.... E isto sente-se, não se explica, é boa gente, o povo mais hospitaleiro que já conheci... Era com muita honra que nos convidavam para suas casas, onde tristemente não podíamos ir, os convites para “Xai” eram horários e as perguntas pela nossa saúde, pelas nossas famílias eram genuínas, nunca um pro-forma.... Quando me perguntaram se precisava de alguma coisa, pedi uma bola de futebol, para que pudesse descontrair e esticar as pernas no pátio da minha prisão.... provavelmente no único pais onde já estive, onde o futebol não existe !!! e a minha apresentação como português cai na insignificância, pois nunca tinham ouvido falar do Cristiano Ronaldo..... lá me conseguiram arranjar uma bola num Bazar.... era uma boa bola e sei que não foi barata.... mas não me deixaram pagar, e tinha eu nesta altura apenas acabado de chegar..... Adorei o gesto...... Adorei este povo, ou metade dele, pois a outra metade como vos disse.... não conheci..... As mulheres são sombras, não existem..... vi as suas dores, salvei algumas vidas, reanimei os seus recém-nascidos..... mas não as conheci..... Não sei quem são, ou o que pensam...... Eram seres, dentro de burqas impenetráveis, que não deveriam existir aos meus olhos, e não existiram mesmo! 
A pressão de que vos escrevo, sente-se no ar... o ar é pesado, as proibições são de quase tudo, e vivemos num estado permanente de observação por parte da comunidade, que nos avalia de uma forma desconfiada, este grupo de “estrangeiros e infiéis” que aparece nesta  terra perdida..... E as mulheres transparecem essa prisão interior, transparecem na sua conduta, toda uma sociedade repressora em que a burqa é muito mais que uma capa, é uma amarra a toda uma série de acções que para nós nos parecem inatas.... Uma mulher, não ri, não fala alto, não olha um homem nos olhos, não corre, não salta, não fuma, não fala com um homem, não lê, não escreve, não nada !!! Nada !!! Casa aos 12-14 anos, com quem tiver dinheiro para este “amor”, e depois fica em casa, fechada, toma conta dos filhos e fala com as outras mulheres da família..... larga a sua família após o casamento para nunca mais voltar.... Corta o seu cordão umbilical biológico, para nunca mais voltar, e passa a ser propriedade do seu marido, em que este faz o que bem entender que esta sua posse, e se for um homem bem sucedido, terá certamente as mulheres que o dinheiro lhe der para pagar....

A mulher legalmente vale 50% do que vale um homem, por exemplo, no que trata a uma indemnização ou uma opinião em tribunal..... Mas na prática, sabemos que nem isso..... uma mulher vale muito menos..... vale o que o homem que a comprou quiser que ela valha..... e por mais que eu saiba que, não me cabe a mim julgar uma cultura, o impacto das histórias que tenho para vos contar marcaram em mim, como pessoa e como médico um ponto sem retorno....

Há certos momentos da nossa vida, em que um dito juramento de Hipócrates, transcende a nossa pessoa, pois ser médico, vai crescendo dentro de nós, e em certos momentos é muito mais de que uma profissão, um ganha-pão, é a essência do nosso ser, e fui obrigado a aceitar certas regras que contrariam a minha própria razão de existir.... mas como qualquer peão no seu xadrez, eu sabia os meus movimentos, até onde podia ir e onde nunca podia ir ...... Nunca, mas nuna...... NUNCA, NUNCA, NUNCA...... discutir as regras do jogo. E as regras são, as mulheres valem o que os homens quiserem, e se o marido não está é o irmão do marido, ou a mãe do marido, ou o pai do marido..... que decidirá o que eu posso fazer ou não como médico.... e elas as mulheres, sabem disso..... a sua vida, não é delas..... a sua vida é de quem o pai delas quis que ela fosse.....

Eu, como qualquer médico, dependo em tudo, do consentimento do marido, no que diz respeito aos mais simples actos médicos, relativos à saúde de uma mulher.... e se ele ou um legitimo substituto, não estiver, nada faremos, nem que a consequência, seja a vida dessa mulher..... E assim foi , mais vezes do que me gostaria de lembrar.....

À minha frente, sabendo o que tinha que fazer, mas sem autorização para tal..... várias vidas vi eu se perderem..... Não me lembro de todas, mas lembro-me de algumas e é isso que vos vou contar !

Women with no names !!!!

(continua....)

1 comentário:

  1. Muito forte... "janela do nosso mundo"... obrigado pela partilha.

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