quarta-feira, 21 de maio de 2014

Escrita Criativa - 3)





O meu nome é Ahmed. Não desistir da minha cidade, que eu amo, Aleppo, tem sido uma escola de vida.
Dizer que estou habituado, em nada ameniza a minha dor.
Tinha 17 anos, quando o rastilho da primavera Árabe, nos deu forças para ir para a rua, na crença que estava também na nossa hora de ser livres...

Mas aqui, os sonhos pagam-se caro!

A minha juventude, aliou-se à minha rebeldia, na luta pela utopia, e fui atrás das palavras de ordem que ecoavam, nas ruas do meu bairro; “Democracia, Liberdade, Fim da Ditadura”, para me juntar à manifestação dos que respiram o meu sangue. A minha mãe chorava, enquanto agarrava os meus 3 irmãos, e eu sem pensar, disse-lhe o que me ia na alma; “Mãe, vou para a rua, pela Síria! Se eu não voltar, é porque fui com ela!” E foi a última vez que senti o calor da minha mãe. Na minha ausência, um MIG, bombardeou o meu prédio, e com ele desapareceu tudo o que tinha.

A viver na rua, sozinho com o mundo, a minha luta mais difícil, foi prometer a mim mesmo, que nunca levantaria uma arma. Mas luto com a coragem inigualável de quem já não tem nada a perder.

Escrevo.
Leio.
Faço escrever.
E faço ler.

Aleppo despiu-se da sua alegria milenar, e viu fugir as suas mães e seus filhos, para bem longe dos seus horizontes, para bem longe dos presentes explosivos que recebe dos céus.

Eu escrevo e leio por quem o não sabe fazer, e todos os dias luto contra as probabilidades de quem entra e sai da cidade, para que o amor, os carinhos, as saudades, e os manifestos de esperança se façam chegar, entre a cidade e parte das suas gentes fugidas, nos campos de refugiados que cresceram como cogumelos na fronteira.

Mas aprendi, que viver é perder.

Já há muito, que não temo pelas bombas, mas o peso das cartas que carrego, não pára de aumentar. Todos os dias, vejo a dor das mães que cavam fundo, a ferida de quem perdeu um amor, o desespero das mulheres, que nunca mais terão quem lhes alimente os filhos.

Aqui os sonhos pagam-se em lágrimas, em sangue, em vidas.

E todos os dias me pergunto, com quantas vidas se escrevem as palavras, “DEMOCRACIA, LIBERDADE, FIM DA DITADURA”, nas terras da minha amada Síria?


Desistir? Não, obrigado!

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