domingo, 24 de janeiro de 2016

My First Bomb

My First Bomb

A primeira mensagem que eu gostava de deixar é que uma guerra, não passa apenas porque deixamos de ouvir falar nela... simplesmente deixa de ser interessante para os media e seus consumidores, ouvir/ler/ver mais do mesmo...

A guerra do Afeganistão não pára de piorar, a cada ano há mais ataques, há mais vítimas, mais dor e sofrimento...

Em Kabul, os próprios Afegãos tremiam ao ouvir falar da província de Helmand, pois é sem dúvida um dos pontos mais “quentes” do Afeganistão... A cidade de Kandahar (bastião máximo dos Taliban), foi rapidamente controlada pelas forças aliadas, fazendo com que a resistência Taliban, se refugiasse na província de Helmand logo ao lado, e zona esta que tem cerca de 90% da produção de ópio do planeta.... Guerra, Droga, Pobreza extrema.... todos os condimentos para se tornar um local “fantástico” para se viver...

(produção de ópio no Afeganistão))
A cidade de Lashkar Gah, onde eu vivi, 2,5 meses é a capital da província de Helmand. A cidade está “controlada”, pelo exército Afegão, e pelas forças dos aliados, mas toda a cidade está rodeada por kilómetros e kilómetros de território controlado pelas forças de oposição Taliban, e que faz desta zona um terreno muito hostil, e sem dúvida das zonas mais perigosas do Afeganistão.... O dia-a-dia, não me deixa dúvidas de que estou numa zona de guerra. Entre a casa onde vivemos e o hospital, fazemos sempre caminhos diferentes para que a nossa trajectória não seja previsível, e assim alvos-fáceis... frequentemente passam caravanas de 4x4 do exército Afegão e/ou Britânicos (que era a força internacional da zona) a uma velocidade inacreditável, para que um ataque à bomba seja mais difícil de acontecer.... e somos sobrevoados frequentemente por máquinas de guerra de todo o tipo, aviões, helicópteros, drones.... tudo o que voa e deixa cair bombas passa por cima das nossas cabeças frequentemente.... é uma zona de guerra! Não há dúvidas....

(Lashkar Gah, e o rio que nunca vi)
Mas a vida contínua, para quem lá vive... a cidade é grande e com uma área muito dispersa de casas térreas, feitas na sua maioria de construção em terra, num terreno muito plano e com uma grande amplitude térmica, extremamente frio no inverno, e um calor infernal no verão (-20 aos +50º)... A vida da cidade é agitada, com muito comércio de rua, muitos pequenos Bazars,... e ao que consta a beira-rio da cidade é super bonita, com um parque simples, mas charmoso, mas onde eu nunca fui.... proibido, por regras de segurança dos MSF... Em nenhum momento, pus os meus pés na rua.... A minha vida era: casa-carro-hospital.... hospital-carro-casa....e assim foi sem excepções... sustentados no lema de que o nosso maior perigo é estar à hora errada no sítio errado, e como tal havia que jogar com as probabilidades, para nos mantermos longe dos perigos.... e é desses perigos que vos escrevo aqui...

O Afeganistão foi a minha 3a missão com os Médicos Sem Fronteiras, e a minha 3a guerra, depois de Congo e Paquistão. Todas têm contornos muito diferentes; na guerra do Congo, a guerrilha de metralhadora, no meio das montanhas da selva, muito volátil, onde as fronteiras do conflicto variavam a cada dia, na guerra que mais gente matou desde a 2a guerra mundial, vivi situações in extremis... No Paquistão, a pressão e tensão cultural/religiosa sufocava-me como nunca pensei ser possível, e a proximidade a grandes atentados, mexeu na profundidade dos meus medos... mas nunca tinha vivido/sentido/ouvido uma bomba a rebentar estrondosamente, como senti em Lashkar Gah, sul do Afeganistão.
 
Nos briefings que todos temos e várias vezes, sobre segurança, repetidamente foi falado, o número de atentados que ocorria por época, e eu sabia que ia acontecer... mais tarde ou mais cedo uma bomba ia rebentar... estas conversas causam-nos medo e calafrios, mas tento ser optimista e pragmático.... estatisticamente a probabilidade de me atingir a mim é muito baixa, e juntamente com a rotina do dia-a-dia, e a pressão imensa do meu trabalho que tanto me absorve, passamos a viver com essa “estatística”, com uma enorme tranquilidade... E por isso sentia-me preparado para o que aí viesse... mas claro que nunca estamos.... como outras coisas na vida.... há a primeira.... e depois todas as outras...

A minha primeira bomba marcou-me imenso até hoje (mais ou menos 4 anos depois escrevo, o que na altura senti), muitas vezes me lembro desse dia... e vou tentar vos explicar porquê!

Eram 10-11 da manhã, estava a beber chá no bloco operatório com 3 enfermeiros, quando ouvi um estrondo, intenso e seco.... gelei e olhei-os nos olhos.... e um deles, diz com apreensão mas naturalidade: “it´s a bomb!” , senti o corpo todo a tremer ao imaginar que a centenas de metros de mim acabava de testemunhar um ataque suicida à bomba.... tantas vezes tinha ouvido falar, mas senti-lo é bem diferente.... Primeiro gelei, sem saber bem o que havia de fazer, considerei até continuar a trabalhar... mas revi na minha cabeça as regras de segurança e achei melhor juntar-me à minha equipa no edifício dos escritórios do hospital... Os enfermeiros reagiram com uma frieza que me pareceu estranha, (mas depois de 40 anos de guerra, compreendo), mas também se começaram a preocupar à medida que tentavam contactar os seus familiares e as redes de telemóveis foram todas a baixo... Ao deslocar-me ao encontro dos meus colegas, vários pensamentos começam a assombrar a minha cabeça: “E se é a primeira de muitas bombas?” (muito frequente, a 2a ser ainda mais forte).... “E se isto é um ataque à cidade?”.... nisto ao caminhar no espaço em torno do hospital a céu aberto, avisto a não mais do que 300-400 metros de mim bem alto no céu e ainda a subir, o famoso cogumelo de fumo.... e é assustador ver a dimensão desta gigante massa de fumo.... cada vez fico mais assustado, e quando me junto à minha equipa no escritório a apreensão é brutal e colectiva! Quem foi? Onde foi? Quantos mortos? Quantos feridos? Alguém da nossa equipa? Algum familiar da nossa equipa? Todo o staff local que trabalha connosco está nervosíssimo ao saber do local da explosão e a tentar imaginar se a esta hora algum dos seus queridos por algum motivo poderia estar a passar ali.... são momentos de grande tensão.... e fico cada vez mais fragilizado pela emotividade e sofrimento que começo a ver nos olhos de cada um....

Há uma fase de medo, e logo se segue a fase de acção.... há que tratar dos feridos, afinal é para isso que nós viemos e é isso que sabemos fazer melhor.... temos um “Mass Casualty Plan”, e todos na teoria sabemos o que fazer, e aí vamos em direcção ao edifício do Serviço de Urgência, com um rádio na mão para algum alerta de segurança..... nunca se sabe, é tudo imprevisível.... Ainda tenho uns segundos para levantar a cabeça e ver que o cogumelo de fumo, mesmo passados alguns minutos, ainda cresceu bem mais e parece estanque e imóvel nos céus... e foi logo após que avistei o que mais me marcou.... os portões do hospital que se aproximavam da minha visão à medida que caminhava no sentido do Serviço de Urgência... Toda a cidade estava em alvoroço.... milhares de pessoas aglomeradas nos portões do hospital, os feridos trazidos em ambulâncias, ou em carros, ou em motos, ou em macas, ou em ombros.... e toda a cidade que queria saber se os seus estavam ou não mortos ou feridos.... até hoje parece que ouço os gritos de um povo em desespero de quem nada sabe sobre os seus entes queridos.... Os guardas do hospital, que mais não eram do que 3 ou 4 senhores (sem armas) com o colete dos MSF, com a tarefa herculeana de deixar entrar os feridos e quem os carregue sem deixar entrar a população em alvoroço, para que nós possamos trabalhar... imagens “à filme” com pessoas espezinhadas nos portões do hospital que eu via através dos ferros, aos gritos, pelos seus familiares feridos ou mortos.... enquanto os feridos entram a conta gotas pelo meio da população em fúria....

(foi algo assim que eu vi)
Já tinha estado em alguns cenários multi-vítimas e sinto-me bem preparado para tal.... mas é impossível conter a adrenalina que nos sobe pelo corpo e nos domina por completo as emoções quando entramos no serviço de urgência e o caos é a palavra que me salta à cabeça.... gritos de dor e desespero, cheiro a sangue e a queimado, médicos e enfermeiros nervosos a correr de um lado para o outro meios desnorteados.... há feridos em todos os cantos, e não há macas para todos, muitos ficam no chão.... a triagem é tudo o que mais interessa, mas que é um desafio enorme.... estabelecer prioridades, no meio de tantos gritos, detectar os que têm lesões ameaçadoras à vida, e todos os outros que podem esperar.... Há um primeiro segundo em que o medo e pânico me dominam, sinto um friozinho na barriga, mas não é tempo de deixar entrar as emoções.... é tempo de agir como uma máquina fria, treinada e formatada para salvar vidas, não só mas também em cenários como este....  e arregaço literalmente as mangas para pôr mãos à obra... Certifico-me de que a triagem está a ser bem feita nos doentes que mais me preocupam.... pois para os feridos graves todos os minutos contam....

Morreram logo no local mais de 30 pessoas, e houve cerca de 20 feridos graves (em que alguns vieram a morrer), mas que foram direccionados para o hospital militar dos Britânicos, e outros para a Emergency (ONG Italiana), ambos só tratam feridos de guerra, enquanto o hospital onde eu estava era o hospital generalista da cidade que tratava tudo a todos... e assim recebemos mais de 30 feridos em que nenhum corria risco de vida... queimaduras, e muitos, muitos estilhaços, e alguns membros partidos....

Quando o ponto da situação estava feito e parecia certo, não entrar mais nenhum ferido, começamos a “arrumar” a casa, e não sei bem porquê, virei-me para um miúdo que estava deitado numa maca.... Magro e aloirado de 10-11 anos, de olhos claros, molhados, mas sem chorar ou berrar.... estava cheio de estilhaços.... ajudei a tirar a roupa que ainda tinha, e em alguns locais vem a pele queimada que estava colada à roupa.... e com a ajuda dele que por gestos, me vai orientado, para as zonas que mais lhe doem, vou inspeccionando todas as áreas de estilhaços que tem pelo corpo todo.... adorava poder falar com ele, mas resta-me pousar a mão no seu ombro em sinal de amizade e sorrir, para quebrar o gelo....  Ele tem estilhaços no couro cabeludo, nas costas por todo o lado, e por isso está semi-sentado apoiado nos cotovelos, e alguns nos braços e nas pernas.... apanhou-o de costas....menos mal! Vou-lhe limpando as feridas e as queimaduras, retirando pedaços de pedra, ferro, madeira e sei lá mais o quê do seu corpo.... Mas não o consigo fazer, sem lhe causar alguma dor... no entanto, apesar de ser uma criança, sinto-o agradecido, enquanto lhe caiem lágrimas pelos olhos.... mas não chora alto, não grita, pouco se manifesta..... apenas lhe caiem as lágrimas.... Quando caio na tentação de parar para pensar... também fico com os olhos húmidos, mas retraio as emoções.... estou a li é para trabalhar...

Depois desta já vivi muitas mais bombas, mas nunca mais me vou esquecer da minha primeira bomba e da resiliência desta criança...

No dia a seguir, percorri todos os sites internacionais possíveis, a ver o que diziam, sobre este ataque suicida à bomba, que foi numa rua que era um dos caminhos que nós fazíamos e fizemos centenas de vezes entre a casa e o hospital... mas não encontrei notícia nenhuma em lado nenhum....


Para todo o mundo foi apenas mais uma bomba no Afeganistão.... para mim, foi viver bem de perto a dor de um povo no local onde eu naqueles meses chamei casa....





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